Museu da Periferia chega ao Sítio Cercado | Zé Beto

Museu da Periferia chega ao Sítio Cercado | Zé Beto.

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formação do conselho gestor do MUPE

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A formação do Conselho Gestor do MUPE contou com uma mostra de fotografias antigas do Sitio Cercado. O acervo esta sendo construido pelos próprios moradores. Palmira de Oliveira relata a historia de Dona Deuzita da Cruz, integrante de uma das primeiras familias do bairro.

Moradores do Sitio Cercado se reuniram neste sábado, na Associação de Moradores Vila Vitória, dia 22 de maio de 2010, para formar o Conselho Gestor do Museu de Periferia do Sítio Cercado (MUPE).

O Sítio Cercado é um dos bairros que mais cresceu em Curitba nos últimos 30 anos e foi o centro do maior movimento urbano por moradia ocorrido no Brasil. O bairro está sendo reconhecido pelo Instituto Brasileiro de Museus como território de interesse Histórico Nacional através do programa “Pontos de Memoria”, coordenado pelo departamento de Museologia Social do IBRAM.

O Conselho do MUPE foi constituido por 10 membros titulares e 10 membros suplentes representando as seguintes regiões do bairro: Vila Americana, Xapinhal, Osternack, Parigot de Souza/Coqueiros, Sambaqui/Novo Horizonte, Bairro Novo A,B e C, Campo Cerrado e Vila Rio Negro. A reunião contou com a presença da chefe de Núcleo de Museologia Social do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), Claudia Rose, e dos consultores dos Pontos de Memória, da Organização dos Estados Iberoamericanos (OEI), Welcio de Toledo, Inês Gouveia e Daniel Mendes Fernandes.

links para o acervo e documentação do MUPE

www.mupesitiocercado.wordpress.com

www.acervomupe.wordpress.com

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José Alves dos Santos (Zuca). Morador da Vila Americana.

José Alves dos Santos, membro fundador do MUPE, abriu a reunião fazendo um breve histórico do Museu, desde o intercâmbio cultural entre a Associação Nossa Senhora da Luta, ACNAP e Casa Brasil no Xapinhal e o Museu da Maré e Museu de Favela (MUF) do Rio de Janeiro, em abril de 2009, o abaixo assinado pela fundação do MUPE, as primeiras oficinas do IBRAM, o projeto “Como voce vê o seu bairro” relizado nas escolas CAIC e Madre Teresa de Calcuta, as entrevistas com moradores antigos que estão sendo documentadas em video e as diversas reuniões realizadas nas comunidades do Sítio Cercado neste ultimo ano.

A ideia do MUPE é resgatar a história do bairro através do relato das pessoas, dos moradores, fortalecendo a cultura local. A gente fez um processo de sensibilização para a criação do MUPE que começou em abril de 2009, tivemos varias reuniões nas comunidades dentro desse pensamento e dividimos o Sítio Cercado em dez regiões através da história da ocupação urbana e das diferentes formas de acesso à moradia.

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Luci Otazia Ribeiro Valente. Moradora do Sambaqui.

Sou moradora do Sambaqui. A gente vem de uma longa história de luta pela moradia e o Sítio Cercado é um bairro que nasceu de luta por moradia. O que eu mais gostaria de frisar aqui é a importância desse museu pra nós, o MUPE, porque eu sei que cada vila do Sitio Cercado, ela tem a sua história, e infelizmente a nossa história fica adormecida e a mídia conta uma outra história que não é a nossa história.

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Geraldo Batista. Morador do Xapinhal.

“A história do Xapinhal começou ali pelos anos de 1983, 84. Em outubro de 1988 nós entramos no Xapinhal. A organização foi feita pelo Xaxim, Pinheirinho e Alto Boqueirão. Foi uma situação bem complicada. Nós ficamos mais de um ano em baixo de barraco de lona, aonde morreu criança. Era um banhado, não tinha banheiro pra gente usar. Eram feitas aquelas patentes, todas cheias de água, e não tinha estrutura nenhuma pra fazer um banheiro mais decente. Fomos ameaçãdos de despejo pelo prefeito na época. Nós passamos ali situações complicadas. A gente frazia segurança de dia e de noite em volta do acampamento. Na verdade na época nós estavamos em 3.200 e familias. Foi bastante dificil a situação. Chuva, frio, a lona as vezes não aguentava, qualquer pé de vento jogava, atorava as lonas, dai vinha a chuva e molhava tudo. Depois foi liberado pra gente fazer umas casinhas, umas meia água de 3m x 6m. Muitas familias desistiram, não aguentaram. Dai que veio a COHAB e comprou os terrenos. Foram colocados 1060 lotes. Nós estamos lá até hoje. Ainda é complicada a situação porque nós terminamos de pagar os terrenos e até hoje a COHAB ainda não deu a escritura pra gente. A gente está nessa briga ainda. A luta sempre continua.

A gente começou a se organizar e na época a gente não falava em ocupação. A gente falava que tava indo pra viagem. Até que a pessoa no dia chegou e perguntou: vocês estão preparados pra viagem? Estamos. Entao cada um vai pra sua casa pega a sua lona4 e meia noite a gente se encontra, E aí todo mundo saiu se abraçando e chorando. É mais ou menos assim a história do Xapinhal.”

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Francisco Ramos (Seu Chiquinho). Morador do Campo Cerrado.

A história do Campo Cerrado é uma história semelhante ao Xapinhal. Foi invadido lá no dia 2 de novembro de 1990. Na época não era da gente, né? Então a gente invadiu. Aí depois nós ocupamos. Ficamos numa situação bem dificil. Era um local onde a cidade toda jogava lixo naquele setor. Barraquinho de lona, a situação era complicada. Daí deu muita chuva, e veio também ataque da policia, Tivemos a polícia em cima querendo que o povo saisse de qualquer forma. È uma historia muito longa, dificil até da gente relembrar. A gente tenta lembrar o melhor, mas, sempre aquela história fica marcada.

Hoje graças a Deus está bem melhor e tem bastante coisa ainda pra ser melhorada. A gente está com o terreno pago mas ainda não conseguimos os nossos documentos de quitação para escriturar. Mas esperamos que cheguemos lá, assim como a gente chegou ate aqui, chegaremos lá, se Deus quiser.

Nós achamos bastante importante este processo deste museu porque reaviva a memória dos mais velhos para deixar para os mais novos. Muitos dos mais novos que estão naquela situação que estão não sabe de que forma que aconteceu tudo isso.

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Adenival Alves Gomes. Morador do Parigot de Souza.

O caso do Parigot foi lá pelo final dos anos 70, muito naquela explosão do pessoal que veio do campo. O governo ferderal mandou erradicar as lavouras de café e as pessoas abandonaram o campo. Naquele ano o Paraná perdeu em torno de 1 milhão de pessoas que foram para outros estados. Em 1970 a populaçao rural do campo era 73%, em 1980 era 40% aqui no Paraná, só para você ver a migração que teve, e Curitiba começou a inchar. Naquela época ainda tinha programas como esse que agora está fazendo o governo federal como o “Minha casa minha vida”, tinha era construção de conjuntos habitacionais. Aqui, naqueles anos, foi construido o Jardim Paranaense e vários conjuntos: Euclides da Cunha, Santa Ines, Tiradentes, no mesmo ano Parigot de Souza, Salgueiro, Oswaldo Cruz 1 e 2, Guaporé 1 e 2. O Parigot de Souza é fruto disso. Ai, é claro, depois do conjunto entregue, começou a luta por escola, por posto de saúde.

A gente vai fazer esse resgate da história com os moradores mais antigos e tem que ter um momento pra contar também esta luta do movimento de moradia, das ocupações do Xapinhal, do Campo Cerrado, do 23 de agosto, pois canta-se em prosa e versa o Bairro Novo, que é um grande programa sem dúvida, mas, não se canta que isso foi uma conquista do movimento e de uma luta popular.

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José Aparecido da Silva. Morador do Bairro Novo C.

Depois desta riqueza de historias todas eu vou falar um pouquinho só. Eu participei dos movimentos sociais de moradia na época da invasão do Banestado. Saiu o Sambaqui depois da invasão do Banestado. Eu sou do bairro novo C, que era um bairro meio abandonado, as ruas meio esburacadas. A participação do povo é muito importante e o Bairro Novo hoje se transformou numa cidade. Está com as ruas asfaltadas, bonitas, mas por causa da participação popular. O MUPE veio tambem para enriquecer esta cultura, esta história. Eu trabalho na Radio Comunitária aqui no bairro e quero participar do MUPE trazendo os violeiros de toda a região.

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Arlinda Messias dos Santos. Moradora do Osternack.

Vou lembrar um pouquinho da história do Osternack. A gente é morardora de lá há 30 anos. A dificuldade que nós tivemos quando entramos na nossa Vila. Naquele tempo era uma vila isolada, era considerada uma área mais rural. Não tinha nada, não tinha benfeitoria nenhuma, não tinha nem ônibus. Quando chovia no Rio Padilha derrubava a ponte a gente ficava lá isolada. Não tinha rua, cada um abria a sua rua. Melhorou depois que teve essa ocupação. O Campo Cerrado, aqui onde entraram muitas famílias. A pressão do povo começo a ajudar a gente a conseguir as coisas. A gente começou a brigar junto, e dizem que a união é força, dai foi em 1990 que teva a ocupação do Campo Cerrado e em 91 a de 23 de Agosto. Dai veio um monte de gente e ajudou a gente a melhorar a vida. O Bairro Novo foi feito por causa destas duas ocupações, a do Campo Cerrado e a de 23 de Agosto.Os que chegaram primeiro sofreram demais. Não tinha água, não tinha luz, não tinha nada.

A noite de 23 de agosto foi bastante sofrida. Se existiu um dia do juizo foi aquele dia. Tava tudo calmo quando a gente chegou à meia noite, mas lá pelas 3 da manhã chegaram os tratores e começaram a destruir tudo, A gente viu a união do povo. Veio o padre, o pastor tudo junto rezando. Se ficassemos ali eles passavam por cima. Quem tava lá é quem viu. Ninguém existe que ocupa a terra e que não tem sofrimento.

 

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Vera Lucia Soares Peres. Moradora do Osternack.

Meu nome é Vera. Eu entrei no dia 23 de agosto. Eu comecei a fazer parte do movimento a partir do dia que eu tomei consciência de que se eu não entrasse na luta eu não iria conseguir ter uma moradia digna. Morar em área de risco, barraco, favela não é morar com dignidade. A gente queria um projeto de loteamento, ter moradia, ter como pagar. A gente não queria ocupar, confrontar com ninguém. Mas, como ninguém deu atenção, a gente ia e voltava e nada de resposta nós fomos obrigados a entrar mesmo e pressionar. Não é só a terra que é importante. A gente luta pela saúde, pela educação, pelo meio ambiente. A luta nossa é tudo isso.

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Palmira de Oliveira. Moradora do Bairro Novo B.

Quando eu vim morar pra cá eu perguntava: O que é que eu vou fazer neste fim de mundo? Como que eu vou trabalhar? Eu era enfermeira e tinha que trabalhar de branco. Dai enrolava as calças com saco plástico pra sair de casa, chegava no ônibus e tirava aquilo e guardava numa sacola. Eu chorava todo dia. Agora não saio mais daqui, peguei gosto pelo bairro. Hoje muita coisa mudou, melhorias, posto de saúde, e eu falei: vou morar neste bairro, vou criar meus dois filhos aqui e lutar para que fique cada vez melhor.

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Cláudia Rose, chefe do Núcleo de Museologia Social do IBRAM, e os consultores dos Pontos de Memória: Wélcio de Toledo, Daniel Mendes Fernandes e Inês Gouveia.

Gostaria de falar que o Ibram é um instituto criado recentemente pelo Ministério da Cultura; tem um pouco mais de um ano. Mas, o trabalho com museus não é novo, e era feito anteriormente pelo IPHAN, através do seu Departamento de Museus. Importante lembrar que o IPHAN nunca trabalhou apenas para os museus federais, os 28 museus. Sempre teve esta abertura para outras iniciativas museológicas. O trabalho foi crescendo porque os museus foram adquirindo uma importância maior, começaram a trabalhar com outras dimensões do patrimônio, não só do ponto de vista de guardar objetos mas começaram a dar atenção à memória. Na maioria das vezes e historicamente quem escolhia o que devia estar nos museus era uma elite. E essa foi a grande mudança que foi acontecendo não só no Brasil, mas, no mundo todo, que é a de ter outra perspectiva das comunidades que também querem contar suas histórias e que a sua memória de luta fosse reconhecida como algo importante, como de fato é. Por exemplo, por que só a pena que a Princesa Isabel usou tem que ser guardada e mostrada. Porque e neste caso aqui nosso, não guardamos a caneta que as pessoas usaram para assinar o abaixo assinado para conseguir um posto de saúde? Então isso foi mudando. Principalmente porque as comunidades começaram a reivindicar seu direito à memória. Isso não veio de cima para baixo.Toda essa movimentação fortalece a idéia de então se criar o Instituto Brasileiro de Museus. Com o objetivo de atender as diferentes demandas do ponto de vista de museus, tanto os tradicionais como os que agora estamos criando, os museus sociais. Por isso, em parceria com o Ministério da Justiça, através do Pronasci e a OEI – Organização de Estados Interamericanos, o Ibram começa desenvolver o projeto Ponto de Memória. Que é justamente o projeto que visa o reconhecimento das iniciativas nas comunidades. Então, os técnicos do Ibram que somos nós, vão nos lugares indicados pelo Pronasci e lá irão reconhecer onde existem estas demandas pelo trabalho de reconhecimento da sua memória. O Sitio Cercado foi um bairro escolhido primeiro porque foi indicado pelo Pronasci e segundo por existir este desejo e organização da comunidade.Surgiu inclusive de um contato anterior do Professor Mario Chagas, diretor de processos museológicos do IBRAM, com o Octávio aqui de Curitiba e que coordena junto com vocês este processo aqui. E hoje foi muito importante ouvir todas estas histórias e ver como não só as comunidades querem suas memórias sejam reconhecidas, mas que as sejam também em museus. E museus diferentes como o MUPE. Museu da Periferia. Mas que temos certeza que não falará somente das coisas daqui, mas que terá como preocupação dialogar com outras experi6encias do país. Vocês mesmo relataram que o começo deste processo foi através de um intercâmbio com artistas dos Morros do Rio de Janeiro que vivenciam a organização de museus como este.

A memória, portanto, é um direito. E não é menos importante que o direito á moradia, á saúde e educação, por exemplo. Porque todos estes direitos só foram conquistados com muita luta. E muitas vezes marcado por tristezas. Mas, tristeza maior é imaginar que as gerações futuras não terá conhecimento desta história de luta. Então, que temos que compreender e lutar pela memória como direito fundamental.

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Sobre encaminhamentos:

Daqui até o fim do ano temos dois momentos importantes: um que vai acontecer do dia 12 a 16 de julho, que é o Fórum Nacional de Museus, que será em Brasília. E de cada ponto de memória participará um integrante. Estamos organizando para que neste momento façamos exposição dos pontos de memória. E o segundo momento é a Teia que acontece todo ano em dezembro, que irá encerrar este período do trabalho dos pontos de memória.

Além destes eventos, nós estamos organizando um calendário de oficinas para os pontos de memória. A primeira será dada em junho, que é a oficina Museu, Memória e Cidadania, para aprofundar conceitos da museologia. Debater sobre o que Museu e Memória tem a ver com cidadania, entender os tipos de museus, entre outros conteúdos. Também estaremos acompanhando com técnicos que voltarão aqui o processo que vocês já estão fazendo que é o inventário participativo. O que é isso? Essa coleção de materiais, objetos nós ensinaremos como pesquisar tudo isso, como registrar , organizar e catalogar. E de que forma a comunidade será envolvida neste processo. E a partir deste inventário, a comunidade vai pensar num produto de divulgação. Para poder divulgar ao bairro mas também para fora dele.E para fazer este produto e também o inventário, os Pontos de Memória receberão uma verba do IBRAM. Acreditamos que entre agosto e setembro o repasse seja feito.

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Fotos: Gilson Camargo

Conselho Gestor do MUPE – Museu de Periferia do Sitio Cercado:

Vila Americana
Titular – José Alves Afonso Filho (Zuca)
Suplente – Marcelo Souza Rocha

Xapinhal
Titular – Catarina Pereira Passos dos Santos
Suplente – Antonio Pinheiro de Jesus Filho

Osternack
Titular – Arlinda Messias dos Santos
Suplente – Frederico Pinheiro

Bairro Novo – A
Titular – Simone Raia
Suplente – Roberto Fernandes

Bairro Novo – B
Titular – Palmira de Oliveira
Suplente – Heliel Marcilio Barbosa

Bairro Novo – C
Titular – José Aparecido da Silva
Suplente – Sueli Siqueira

Campo Serrado
Titular – Maria das Graças de Moura
Suplente – Luiz Antônio Aparecido Belotte

Sambaqui / Novo Horizonte
Titular – Luci Otazia Ribeiro Valente
Suplente – Joel Alves da Silva

Parigot de Souza / Coqueiros
Titular – Adenival Alves Gomes
Suplente – Sebastião Roberto Cardoso

Vila Rio Negro
Titular – Valmir de Souza
Suplente – Moacir Gonçalves da Silva

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Fonte da Matéria:  www.vanhoni.com.br